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Frases para parar de usar

Respeito é bom e todo mundo gosta. Mas por que não tiramos das nossas falar expressões carregadas de preconceitos? É uma pergunta complicada, mas tudo depende de você mudar seus hábitos e passar a se expressar mais respeitosamente com todo mundo.

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Cara ou roupa de pobre/favelada/mendiga/empregada

Quem já não ouviu essa? Usar roupa “x” ou “y” é proibido porque faz a gente parecer pobre, e tem coisa pior que isso? Quando falar que “fulana tá parecendo pobre”, saiba que está demonstrando puro elitismo, reforçando a ideia de que as pessoas pobres são bregas, se vestem mal, são relaxadas e sujas. Pasmem: os pobres se preocupam com estilo tanto quanto os mais ricos. A diferença é que um grupo não tem poder de compra e outro tem. E pode ser também que essa seja uma escolha consciente: qual o problema de usar uma roupa mais simples? Um chinelo azul e branco? Eu, hein, cada um usa o que pode e o que quer, e ninguém tem o direito de meter a colher.

Revista Capitolina

“Cabelo de Bombril” e derivados

Existe uma ideia de que qualquer coisa relacionada ao corpo que desvie de um padrão eurocêntrico é considerada ruim. Isso acontece muito com os cabelos. Quem nunca ouviu falar em “cabelo ruim”? Você já reparou que cabelo ruim é sempre aquele que não é liso? Mas a verdade é que não existe cabelo ruim, cabelos são cabelos e pronto. É um ato extremamente racista dizer que mulheres negras precisam alisar os cabelos em ordem de serem consideradas bonitas e até higiênicas. Fazer isso é dizer para elas negarem as próprias origens e o próprio corpo. Quem mais se aproveita dessa ideia de cabelo ruim é a indústria dos cosméticos e da beleza, que sempre tem uma solução para problemas inexistentes. Cabelo crespo não é problema, o problema é o padrão de beleza excludente e eurocêntrico.

“Eu e minhas amigas fazendo #gordice”

Parece que hoje em dia as pessoas não podem comer nada sem ter que tirar uma foto e colocar a hashtag #gordice. “O que gorda faz? Gordice”. Não, minhas amigas, pessoas gordas fazem tudo o que todo mundo faz: passeiam no shopping, estudam, trabalham, morrem de amores ao ver o Ryan Gosling, namoram e se apaixonam… Usar o termo “gordice” é reforçar a ideia de que tudo que as gordas fazem é comer, e, mais que isso, de que devemos sentir culpa ao comer. “Dar uma de gorda”, “fazer gordice” não é nada além do cotidiano ato comer. Todas as pessoas no mundo comem, isso não é exclusividade das gordas. Não merecemos julgamentos diferentes se o que comemos é salada ou chocolate, é tudo comida e cada um escolhe o que coloca dentro do corpo. Então da próxima vez que pensar em usar essa hashtag horrorosa, pense que tu tá só comendo, não tá fazendo nada de mais.

“Estampa étnica” e apropriações culturais

Que termo engraçado, “estampa étnica”… Parece que o que é diferente da sua cultura é anormal, como se nós mesmo não fôssemos parte de uma ou várias etnias também. Se toda estampa reflete a cultura de uma etnia, toda estampa é étnica, não só aquelas inspiradas na África e na Ásia. Somos tão globalizados, mas continuamos tão eurocêntricos…

Apropriação cultural também é uma coisa bem complicada. Muitas vezes estilistas transformam em hype elementos de culturas que não são as dele, popularizando o uso de acessórios como cocares, turbantes e bindis, esvaziando a profundidade de significado que esses objetos têm em suas culturas. Por mais bonitos que sejam esses apetrechos, há coisas que não devemos usar porque é desrespeitoso usá-los sem entender ou acreditar no aspecto sagrado que eles possam ter. Isso é reduzir o valor de uma cultura, é esvaziar seu conteúdo e minimizá-la ao “exótico” e às aparências.

“Pele boa é pele lisa”

Vamos lá: quem nunca sofreu por causa de uma espinha? Ou aquela manchinha depois que a espinha vai embora? Ter espinhas, pintas, manchas, cravos, poros e pelos faz parte do corpo humano. O que acontece é que desse corpo humano é cobrada cada vez mais a perfeição, só que a perfeição não existe! Nós somos naturalmente imperfeitos e temos a mania de querer corrigir o que é “errado”. Pele boa é aquela sem nada, cabelo bom é aquele sem ondas, corpo bom é aquele sem gorduras: não. Isso tudo faz parte de uma idealização, impossível de ser atingida. Manchas, espinhas e outros problemas dermatológicos aparecem com o tempo. Alguns vão embora, você pode querer escondê-los ou não, mas o importante é não achar isso algo anormal e que não acontece com ninguém. Pele boa é a que te protege, é a sua própria pele, essa aí, por todo o seu corpo. É só saber protegê-la para não correr riscos de saúde.

“Mesmo sendo negra ela é linda” e “Você é linda de rosto”

O cruel padrão de beleza dita que pessoas bonitas são sempre brancas e nunca negras. Magras e nunca gordas. Dizer que uma pessoa é linda de rosto, é o mesmo que dizer “você é linda de rosto, mas seu corpo é horrível”. Da mesma forma, “você é linda mesmo sendo negra” é como “você é linda mesmo não sendo branca”. Ou seja: infelizmente o padrão de beleza ainda exclui muitas pessoas. Porém sabemos o quão errado, ultrapassado e preconceituoso é esse tal de padrão de beleza. Se uma pessoa é negra e gorda, isso significa estritamente que ela é negra e gorda, não feia. Existem inúmeras belezas, não só a magreza e a pele branca, o cabelo liso e os traços europeus.

“Tá vestida assim por que? Quer seduzir alguém?”

A ideia de que podemos querer nos vestir só para nós mesmas parece ter dificuldade de entrar na cabeça das pessoas. Quando estamos um pouquinho mais arrumadas ou usando uma roupa diferente, só podemos querer alguma coisa com alguém. Não e não. Podemos mudar o jeito com que nos vestimos ou usar alguma coisa mais sexy apenas porque queremos nos sentir bonitas, sem pretensão alguma de impressionar alguém. Afinal, ninguém nos aguenta como nós mesmas, nada mais normal do que colocar a sua autoestima para cima, seja usando uma maquiagem diferente ou uma camiseta nova.

“Você tá parecendo um traveco”

Quando uma menina alta está de salto ou muito maquiada, tem uns infelizes que soltam “cê tá que nem um traveco!”. Primeiramente, o termo correto é “travesti”, que deve ser acompanhado do artigo feminino, e não masculino. Ou seja, “a travesti”, não “o travesti”. Além disso, ser travesti está colocado aqui como algo depreciativo. O pensamento é que “parecer um travesti seria ter traços masculinizados, e deus me livre mulher parecer um homem!” Acontece que travesti não é homem. A ideia de que as aparências estão ligadas ao gênero é errada e ultrapassada.

Em contraste, existe o termo “coisa de menininha” para designar objetos ou atividades ligadas ao estereótipo feminino. Nessa lógica ridícula, maquiagem é coisa de menininha, assim como uma blusa rosa de babados. A única coisa que te torna menina ou menino é sua própria identificação, nada mais.

“Oriental é tudo igual…”

Você já deve ter escutado algo do tipo: “aquela menina tem olhos puxados, mas não sei se é japonesa, coreana, chinesa… afinal, oriental é tudo igual”. Pois bem, para algumas pessoas pode ser difícil diferenciar as variadas etnias asiáticas, mas não pense que “todo oriental é igual”, porque não é. Nosso cérebro tende a estranhar características com as quais não estamos acostumados. Então alguém que não é oriental pode ter o pensamento de que todos os orientais são iguais porque não estamos familiarizados com os traços orientais, assim como os orientais também podem estranhar traços distintivos ocidentais.

“Gorda” como xingamento

Infelizmente o valor das mulheres é frequentemente medido pela sua beleza. Se não estamos dentro dos padrões de beleza, somos taxadas de preguiçosas e indesejadas. Então muitas pessoas se ofendem quando são chamadas de gorda. O que seria pior do que ser colocada ao lado de um grupo que é visto com tão maus olhos? Usar “gorda” como xingamento é dizer às mulheres gordas que elas deviam ter vergonha delas mesmas. Ficar ofendida com “gorda” é uma resposta a esse mundo em que a aparência está acima de tudo, e não ser vista como parte do seleto grupo que se encaixa nos padrões de beleza vigente é a pior coisa do mundo. Mas a verdade é que não deveríamos nos sentir ofendidas com tal palavra. Pessoas gordas existem aos montes, superem essa. Não tem nada de errado em ser gorda.

“Batom vermelho é coisa de vagabunda!”

Não há como negar que a cor vermelha é uma cor intensa. O problema é que muitas pessoas acham que não se pode usar nada colorido ou de cor forte porque é feio, brega e socialmente pejorativo. Esse pensamento foi herdado do tempo em que só as prostitutas usavam maquiagem carregada e batom vermelho. E ser prostituta era ser vagabunda, algo abominável, uma afronta às “famílias de bem”. Mas ser “vagabunda” não deveria ser utilizado como adjetivo depreciativo, porque as prostitutas são dignas de respeito e nossas vidas sexuais não devem ser julgadas. Peças de roupa, sapato, acessório e maquiagem não determinam quem somos!

“Não sou tuas nêga”

Você pode ter querido dizer que não é qualquer uma, que o jeito de lidar com você não é o mesmo com que os outros estão acostumados. Mas o que acaba saindo é muito pior e maior que isso. Essa expressão é totalmente ligada com a escravidão, quando as negras eram literalmente propriedade de homens brancos. Ela também reforça a associação direta da mulher negra ao sexo, como se ela fosse de todo mundo, como se o papel dela na sociedade fosse estritamente sexual. Pense: e se a expressão dissesse “não sou tuas branca”? Ela passaria a mesma ideia? Certamente não. É possível que ela jamais chegue a ser reproduzida.

Vale a pena também usar essa ponte para refletir sobre o mais novo seriado da Rede Globo, Sexo e as nega, que começa errado já no título e, não à toa, foi alvo de crítica e protesto.